No ano que entra...
Eu prometo que vou...
Ainda temos pela frente os festejos de Natal, o ponto mais alto da Cristandade, embora costume ser visto como o centro das ações do comércio e do marketing; depois, virão os festejos do Ano Novo, mas para alguns, este é um momento especial de reflexão que representa o Ciclo do Natal para a Igreja.
Com a cristianização de Roma, à época de Constantino, no século III, e, fundamentada no relacionamento entre o sagrado e o profano, a Igreja estabeleceu o “Ciclo do Natal”, tendo como ponto máximo e o foco central o que para os fiéis é o maior evento histórico da humanidade: o nascimento de Jesus.
Não estamos aqui negando as origens pagãs do evento – desde as celebrações das “Saturnálias” romanas, do culto a Cronos ou ao deus-Sol que estas celebrações passaram a ter outra dimensão para o crente.
Todas as definições do fenômeno religioso mostram uma característica comum: “à sua maneira, cada uma dessas definições opõe o sagrado e a vida religiosa ao profano e à vida secular” – ensina Mircea Eliade, usando o conceito de hierofania.
Uma hierofania significa “algo sagrado que nos é revelado”.
“A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo ‘de ordem diferente’ – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo ‘natural’, ‘profano’”.
Através do cristianismo, o Natal ganhou um “religioso valor mundial”, embora celebrado em diferentes datas pelos católicos Ortodoxos (no Oriente) no 7 de janeiro; e pelos Romanos, no 25 de dezembro. Pode-se afirmar, seguindo o raciocínio de Eliade que este evento se tornou uma “hierofania universalista”.
Com o ciclo do Natal, na verdade se inicia o Ano Litúrgico para a Igreja, que vai do 1º Domingo do Advento (cerca de quatro semanas antes do Natal) e termina no sábado anterior a este.
Aos que se esqueceram das lições do Catecismo, carece lembrar que na verdade deveríamos dizer do Natal que é a celebração da Encarnação de Jesus Cristo, pois Este de fato nasceu na Eternidade como a segunda pessoa da Trindade. Do Catecismo da Igreja Católica Romana, cito: 86. Que significa a palavra «Encarnação»?
“A Igreja chama «Encarnação» ao mistério da admirável união da natureza divina e da natureza humana na única Pessoa divina do Verbo. Para realizar a nossa salvação, o Filho de Deus fez-se «carne» (Jo 1,14) tornando-se verdadeiramente homem. A fé na Encarnação é o sinal distintivo da fé cristã.”
88. Que ensina acerca disto o Concílio de Calcedónia (ano 451)?
“O Concílio de Calcedónia ensina a confessar «um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na sua divindade e perfeito na sua humanidade; verdadeiro Deus e verdadeiro homem, composto de alma racional e de corpo, consubstancial ao Pai pela sua divindade, consubstancial a nós pela humanidade, “em tudo semelhante a nós, excepto no pecado” (Heb 4, 15); gerado pelo Pai antes de todos os séculos, segundo a divindade e, nestes últimos tempos, por nós homens e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria e Mãe de Deus, segundo a humanidade».
89. Como é que a Igreja exprime do mistério da Encarnação?
“Exprime-o afirmando que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com duas naturezas, a divina e a humana, que se não confundem, mas estão unidas na Pessoa do Verbo. Portanto, na humanidade de Jesus, tudo – milagres, sofrimento, morte – deve ser atribuído à sua Pessoa divina, que age através da natureza humana assumida.”
Um poema aclara mais tudo isso. É minha intuição. De CINCO ESTUDOS DEZEMBRINOS (5) – de autoria do poeta e crítico baiano Wladimir Saldanha
Sou dos que sofrem a súbita
contemporaneidade de dezembro.
Mas não me advirtam do solstício
que eclipsaram no Natal.
Os celtas em círculo, seus hinos,
volvem todos para o Menino.
Ignorá-Lo, mudá-Lo em duende,
nada disso abrevia ou consome.
Dezembro se impõem no dia, em pleno abril.
Atravanca fevereiro, acende fogueiras
de São João. Já vai muito distante
quando se deixa ver, definitivo,
para que digam: foi tudo tão rápido!
Dezembro se desmembra: é sempre.
– © byWladimir Saldanha, “Natal de Herodes”, Itabuna (BA): Mondrongo, 2016.
Na primeira leitura da liturgia de ontem (05/12), ouvi que o profeta Baruc (secretário de Isaías; ou por alguém em seu nome), à época em que “os caldeus tomaram Jerusalém e a incendiaram” uma frase forte:
“Tira, Jerusalém, a veste de luto e de miséria, reveste, para sempre os adornos da glória divina. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus, e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno”. (Baruc, 5:1-2).
O chamado ao povo judeu talvez não nos diga muito de perto como chamado profético, mas ao ressaltar em sua homília, ontem, o padre Rafael sugeriu riscar a palavra “Jerusalém” e trocá-la por nosso próprio nome (eu logo pensei em trocar por Brasil) e a frase ganha assim novo significado e grande força.
Afinal, depois deste longo período de pandemia parecemos (quase) todos vestido de luto e de miséria (espiritual ou econômica, moral etc.). No livro de Martim Vasques da cunha “O contágio da mentira” pode o leitor saber mais sobre o tema que estou abordando… A própria síntese editorial assim o reafirma:
Em “O Contágio da Mentira - Como sobreviver na cultura do corona”, Martim Vasques da Cunha explica que a crise de hierarquia surgida com a pandemia da covid-19 não ocorreu somente no mundo da natureza ou no da cultura. Ela se deu sobretudo no mundo das elites intelectuais e políticas. E aqui não sabemos se, por exemplo, a peste pode ter sido causa ou consequência de más decisões desses homens públicos. O que se
reconhece é que, nesses casos, há um flagelo ainda pior do que a catástrofe natural: a anarquia da sociedade.
No livro, conta-se como, nesse ambiente de caos, a mentira impera – e infelizmente contagia aqueles que deveriam combatê-la a todo custo: os intelectuais, os escritores, os jornalistas e os pesquisadores da ciência. Ao mesmo tempo, o autor se pergunta se esses mesmos sujeitos, ao insistirem em suas opções equivocadas, não seriam uma peste à parte. Afinal, eles mexem com o conhecimento e a memória e, quando todos esses
sábios se tornam indistintos, o próprio ato de conhecer perde a sua função e o seu propósito. Por isso, O Contágio da Mentira surge para nos ajudar a entender um pouco mais o que realmente se passa quando uma epidemia atinge não só o tecido social, mas principalmente a própria existência de um país, no âmbito do que significa se informar e saber o que de fato acontece com seu povo.
Lembro-me agora de uma homilia do Santo Papa João Paulo II, em 1982, em visita à Paróquia romana do Santíssimo Redentor. Cito:
II Domingo do Advento, 5 de Dezembro de 1982 - Este Advento está penetrado não apenas da preparação do que deve realizar-se, mas também da consciência do que já se realizou. Este Advento litúrgico é a espera do Realizado — a qual todavia deve continuamente renovar-se na memória e no coração para que não transcorra no passado, mas sem cessar constitua a nossa temporalidade e o nosso futuro.
Temporalidade e futuro aqui se colocam de modo imperativo, profético, para garantir que serão nossas promessas exequíveis, tanto no plano individual quando no coletivo. E, assim pensando, deixo a meus seis leitores os mais sinceros votos de um Feliz e Santo Natal, se não tiver ânimo de redigir mais uma Newsletter até àquela magna data.





